quinta-feira, 19 de abril de 2012

Quebrar o silêncio... com "Tabu" de Miguel Gomes

Não me fui embora para Portugal nem esqueci este canto onde venho fazer relatos intimistas e tontos sobre a minha estadia aqui, a minha experiência...  fora de tudo e dentro de mim.
Acontece que estes dias têm sido cheios de coisinhas que me têm trazido alguns desafios interessantes que me trocaram as voltas ao tempo e ao horário já acostumado a uma via pacata!
Sinceramente foi bom, porque as semanas anteriores, como se notava nos textos chorantes já estavam a tocar ao som do fado que não faz muito o meu estilo.

... e mesmo que o fado não faça o meu estilo, mesmo que o drama português de um amor sofrido e impossível, vivido com tanta paixão quanto com dor, não seja aquele com que mais me identifique, devo dizer que aquilo que me fez madrugar e quebrar hoje o silêncio foi precisamente um filme fado, lindo e desconcertante. Confesso que achei o filme demasiado lento na primeira parte, não o suficiente para abandonar a sala (felizmente), mas cansativo, o que me deu menos fôlego para desfrutar da segunda parte absolutamente maravilhosa e linda. Cada pormenor é artístico, cada detalhe é bonito, cada espaço está pensado e tudo está incrivelmente realizado e montado, está lindo. Claro está que os clichés não podem morrer num dia e ser português às vezes é isto, ter saudade... ser assim... melancólico... Por isso o prémio de melhor crítica em Berlim também o comentou por “ser um desses filmes” que leva “irremediavelmente” à melancolia.

Algumas coisas se disseram por aqui ou por ali, mas sem provar não há gosto. Gostei muito. 

foto via pesquisa por Tabu Miguel Gomes

Como foi bom ouvir português em surrounding sound system, a expressão "já tenho larica" levou-me a casa por breves segundos, foi uma espécie "de vais buscar mais" à alentejana!

sábado, 31 de março de 2012

Sentimentos no fio da navalha...

O frio voltou ao reino e nem mesmo o sol conseguiu minimizar o desgosto súbito que senti com este retorno. A minha sorte foi que a jornada cortando o vento foi para encontrar uma portuguesa muito simpática que me levou a casa, à infância, aos jogos em família, ao super mário.

Este frio estava a querer trazer a mim a saudade de ontem... 

Sim, porque ontem foi mesmo daqueles dias em que este post podia ser meu, porque, de facto, quando entra aquela saudade pegajosa, de letra de fado, que não há mantra que espante, yoga que salve ou música que ajude, é mesmo difícil. Mas como eu ontem optei por encarar a coisa escrevendo palavras gostosas e optimistas, ao dia de hoje fui brindada com muitas palavras simpáticas de Portugal, que eu senti como um abraço gigantesco e que acalmaram muito este desatino. Depois, mais uma bênção, a de uma tarde em português com aquelas conversas que puxam histórias boas!

Dentro do café tudo bem, tudo quentinho, depois também, em conversa boa, mas.... no regresso a casa... e a cada passo que dava, a cada chapada do vento com o frio a abraçar-nos com aquela força gigante de quem te aperta sem tréguas, encolhe o coração outra vez, junto os ombros apertados e enquanto subo no elevador pergunto: "mas o que faço aqui!"

Entro em casa, recebem-se sorrisos e ... "temos para ti dois scones e chocolate quente"
... e mesmo num dia em que os sentimentos andam ali no fio da navalha sem saber bem para onde querem cair, se para a nostalgia desastrosa ou para a alegria desmedida de ter encontrado um sorriso amigo e generoso... ficam quietos, naquele sítio mais calmo, onde é tão bom estar... e nos faz sentir em casa!
a todos os que me escreveram ontem, muito obrigada!




sexta-feira, 30 de março de 2012

Saudades da terra onde se come bacalhau ...

... há dias assim, em que a saudade aperta, em que sentimos tristeza ... em que tudo parece cinzento! E em que as coisas que chegam da terra onde se come o bacalhau que aqui se cria, ainda me deixam mais triste! Aperta o coração, vem a saudade portuguesa, chega a letra de um fado qualquer e instala-se de tal forma que nos faz sentir o coração apertado!
A sorte é que há tias para relembrar que afinal, isto das mudanças é bom ... .

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Porque afinal...                                                                             Continuamente vemos novidades,

Esta foi uma semana atarefada com o final da primeira parte do módulo 1, a primeira metade de algo que ainda se avista gigantesco e que, como o cabo Bojador, ainda tem muito para descobrir!
Foi também uma semana muito estranha por aqui, a amiga que me tem acompanhado e tem feito sorrir tanto, nestes dias vai embora... surpreendentemente chega outra que tem estado longe!
Então porque não agarrar-nos a estas coisas boas em que acredito. Acredito mesmo, que o mundo se arranja e nos deixa sempre ao lado alguém que nos pode ajudar nestes dias assim! Mesmo que a nossa vontade fosse ficar ali sem dizer adeus a esse alguém que nos é querido mas tem que viver a sua vida noutro lado!
Mas quando se diz adeus, e fica tudo dito, ficam essas são as saudades boas 
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
Do bem, se algum houve, as saudades
quando alguém amigo vive longe e não podemos estar juntos, se é nosso amigo lá dentro, no fundo do peito sabemos que guarda em si, em nós, as memórias de uma vida bem passada, de galhofa bem gozada! Seguirmos por caminhos diferentes não significa perdermos o norte às lembranças, não significa perder o que se foi. Pelo menos para mim não significa, até sou daquelas que acho sempre que a vida nos pode juntar um dia, e que seja bem passado, num abraço bem dado!
A todos os meus amigos, e a quase todos disse adeus quando vim,
... o meu abraço! aos que cá tenho, a isto junto, o meu obrigado!


E como há quem também acredite que a mudança é uma coisa boas e até necessária em Portugal (na sua mentalidade) ... aqui fica, para inspirar tanto como me inspirou a mi, por alguém que fala bem melhor do que eu ... tire-se o hífen!



Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.
Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança,
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
Do bem, se algum houve, as saudades.
O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto,
E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:Que não se muda já como soía(costumava)

Fernando Pessoa... Obrigada TJJ


sexta-feira, 23 de março de 2012

Nem tanto ao mar nem tanto à terra...

Hoje, perante o entusiasmo de alguns portugueses emigrados sobre os produtos nacionais, alguém comentava ..."se Portugal é tão fantástico o que estão a fazer na Dinamarca?"
... e eu... que já tinha lido posts como o que me atrevo a escrever aqui hoje numa série de blogs de emigrantes portugueses e brasileiros vejo-me na obrigação de comentar (o mesmo)!!
... mas porquê este extremismo?

Na minha terra diz-se, nem tanto ao mar nem tanto à terra, porque não sentar-nos naquele sítio ali à beira mar e contemplar o que ambos têm de bom?!

Porque não vir aqui ou ir ali buscar o que há de melhor e aventurar-nos naquilo que é ser português de gema, ser verdadeiro a descobrir como ganhámos de herança, navegar por outras terras e poder um dia voltar?!

Porque não poder fazer tudo com tristezas e alegrias mas também (e sobretudo) com as pazes no coração?

Porque pensam as gentes que ficam ou os que vêm de costas voltadas que temos que odiar tudo, que isto se faz só de revolta?

Ser emigrante não significa nem, por um lado, odiar tudo, nem, por outro, ter que voltar só porque gostamos de usar português. Mesmo quando Portugal não tinha para nos dar o que o nosso coração buscava, ou porque não nos dava o pão que o nosso corpo precisava, nem por isso temos que cobrir todas as memórias de negro e achar que nada é bom, nem temos que nos comprometer no silêncio de nunca mais elogiar.
 
Pelo menos para mim não significa! ...  nem tanto ao mar, nem tanto à terra...

Imagem de Tallow via DLF

... eu cá sou emigrante mas uso Fly e Azeite da Vidigueira!
talvez eu me situe num sítio estranho, naquele limite que nem isto tem tudo de bom nem Portugal tem tudo de mau (ou ao contrário - os dinamarqueses são tudo de mau e o tuga é que é bom)! 
Talvez por isso eu consiga ter o melhor dos dois mundos! :)

quinta-feira, 22 de março de 2012

(a) Na tureza :)

Sempre defendi que a Natureza deve ser a nossa grande mestre. Pergunto-lhe coisas e ela responde nas mais variadas formas!
Pergunto como devo agir quando há uma barreira enorme na minha vida... e nesse mesmo dia encontro um tronco de uma árvore que contorna um muro muito grande, que cresce para outro lado, talvez melhor do que o previsto e mesmo assim dá frutos e é linda!
Hoje não perguntei nada mas mesmo assim ela mostrou-me como tudo muda e como as coisas... tão intemporais, devem ser tratadas com afecto mas sem apego!
Hoje foi dia de viver a Primavera num daqueles dias que lhe faz jus ao nome e onde as flores das árvores ao pé do lago começam a brotar. Lembro-me dos dias em que caminhei sobre o lago gelado, nas mãos do meu amor. E se não nos chateamos que os dias mudem, porque nos chateamos que as coisas na nossa vida mudem. É normal. Mas o simples facto de ser normal não nos tranquiliza!
Hoje foi dia de sentir como a Natureza nos mostra que tudo é intemporal, tudo muda e as mudanças são boas!

Para ilustrar isto como ninguém as pinturas intemporais de Andres Amador (via Colossal)
 



quarta-feira, 21 de março de 2012

Viagem Interior... até na procura de emprego!

Ontem fui aluna de engenharias por um dia!
Fui a uma conferencia para preparar os alunos para a feira de emprego que vai haver na próxima semana na DTU. Feira onde vão estar presentes uma série de empresas de todas as áreas das engenharias a recrutar directamente.

Então aquilo que posso dizer é: se há maneiras diferentes de preparar as coisas é a nossa... meu Deus! Quão diferente!

Via sms inscrevemo-nos para a conferência e no dia recebemos nova mensagem a relembrar que ainda estamos inscritos, relembram hora e sala. Ao chegar as cadeiras estão contadas para os alunos que vão! Todos temos um bloco, uma caneta, um pacote de pastilhas elásticas e lá fora há cestos com frutas para todos! O Coffee Break faz-se com frutas, água e sumos e toda a gente come entre as bananas, pêras, maçãs e laranjas que há pela sala, oradores e alunos tudo de maçã na mão!

Só a preparação da própria conferência é diferente, planeada, organizada. A feira vai ser para a semana, para os alunos poderem preparar os seus currículos, cartões, apresentações é feita esta conferência antes.
Se quiserem ver os tópicos... aqui.

Basicamente posso dizer que respondia a 3 perguntas: Como procurar emprego? Como preparar o CV? Como (re)agir na entrevista?
E isto parecem 3 perguntas base mas a resposta à primeira surpreendeu-me fortemente.

Antes de procurar emprego a consultora convidada, com experiência na área de career coaching, bem como na de recrutamento, disse que a primeira fase do processo é sempre fazer uma viagem interior. É claro que a senhora não usou estas palavras mas disse que todo o empregador gosta de ter um empregado que se conheça a si mesmo, que seja consciente de onde pode ir. As sugestões que fazia, muito apreciadas e aplaudidas foram as de colocar uma série de questões antes de começar a procura. E isto é no fundo o que dá sentido à expressão, escolhe a direcção antes de começar a correr.

Mais uma vez, tal como eu acredito sempre, posso perceber que não há nada da vida que não nos exija esta viagem interior, mergulhar em nós, encontrarmos o lado lunar sem despreza-lo, pensando que no Inverno também podemos ter dias bons, mesmo quando gostamos mais do sol.
Na Universidade TÉCNICA, numa palestra prática, o ênfase vai para a psicologia positiva, para a maneira de encarar a vida, encarar-se a si mesmo para poder dar um bom salto para a procura de emprego.

Adorei! Foi pensar que afinal do lado esquerdo também há as cores da viagem, da viagem interior, espiritual que nos completa.



... e por falar em positivo e em relação aos boatos sobre a antipatia dos nórdicos. Foram-me levar à porta da sala, os colegas que me calharam para treinar o elavator speach foram super simpáticos e ninguém teve a antipatia de me perguntar 'se não és aluna o que estás cá a fazer'! Acho que isto pode argumentar a favor de ... atraímos simpatia quando somos simpáticos!

Não sei a origem da imagem, vagueava nos murais do facebook.
 

segunda-feira, 19 de março de 2012

Ai Jesus que cá estou eu...

... só passado um tempo é que sentimos que estamos. Que pousámos, que estamos na mudança que desejamos, que estamos mergulhados na procura, na viagem interior a que isto nos obriga.

Hoje foi um daqueles dias em que a saudade não respeita nada, intrometida não se rende ao pouco tempo que passou e entranha-se assim, pelo domingo adentro ao primeiro abrir de olhos pela manhã. Então é aqui que percebemos e lançamos o suspiro...
Estou mesmo aqui, procurando conhecer mais de tudo, do mundo... de mim...
Não vale a pena aquelas conversas que começam por se que o aperto no peito nos traz, mais vale encarar e olhar com amor para aquilo que vemos, mais um bocadinho de nós desconhecido, um sentimento que nos surpreende a nós, que nos deixa desprevenidos. Temos que ir buscar coisas novas mudar de atitude, porque mudámos de coordenadas há algum tempo. Então olhei para dentro e procurei em mim todo o Alentejo que me coube na mala e que vive comigo.

Então comecei a preparar a magia...

Uma velinha com cheiro a jasmim ... para procurar ideias de como galgar este dia...
Um desenho de uma amiga muito querida, que com a perspicácia dos seus 5 anos (e com ternura alentejana que ainda lhe habita no legado) percebe que hoje algo não está bem... e depois o sabonete que a mãe ofereceu no Natal da despedida...



... e é verdade... fez-se magia!

O dia acabou com uma tarde linda em que matámos saudades com quem acabámos de conhecer e conhecemos também um sentimento que antes não tínhamos tido...  o de abraçar toda gente que nos cabe no peito e deixámos lá, só por conversar e conhecer alguém que percebe o nosso cantinho português!
Fui lanchar com uma amiga que acabei de conhecer, mas num dia destes é tão bom. Mata-nos a saudade do tamanho da planície alentejana de que tanto gostamos. E em conversas soltas, ao lado de um café recordamos como somos, o que sentimos, e  encontramos na língua mãe aquela compreensão  no olhar de quem sabe o que é estar longe. E isso é tão bom! Gostei tanto. Obrigado T.&T.
 
Os passarinhos são a minha companhia de outros Domingos e a minha paixão de longa data... o origami :)