segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

O Autocarro

Quando ia a caminho das Finanças cá da terra, tive uma bela viagem de autocarro de meia horita.

A meio da viagem entra um senhor com um braço engessado que, como qualquer pessoa com uma lesão, seja ela grande ou pequena, ou até um corte daqueles feitos no papel, tudo lá ia encalhar! Então, para resguardar o braço, destas dores estúpidas, mais estúpidas que as outras, porque achamos que só encalharam ali porque temos o braço assim, tirou um saco de uma mão e pôs de baixo do braço engessado. Protegeu-o com o outro e parecia bem mais feliz no resto da sua viagem. Quando saia, a sua axila, não habituada a levar coisas, não o avisou devidamente que havia deixado cair o saco... mas uma senhora, grita nesta língua infernal, qualquer coisa que eu imaginei ser, "pare o autocarro" corre em direcção ao saco... grita mais qualquer coisa que eu eu imaginei ser, "senhor, olhe o seu saco" e volta correndo para dentro do autocarro. Dentro do autocarro as pessoas agradeciam numa das poucas palavras que eu sei em Dinamarquês Tak,(obrigado)  tak! tak! tak! tak!, disseram várias pessoas! E eu, que por momentos me senti incluída por ter percebido o que eles estavam a dizer, depois pensei o quão é bonito observar outra cultura!
Foi aquele momento em que o pensamento "Ora esta!" não me pareceu antiquado mas sim perfeito... e depois ainda juntei " E esta hein?!... tá boa!" As pessoas agradeceram à heroína a sua boa acção, quase como se fossem o próprio senhor engessado. Aqueles que antes não ligaram patavina ao seu braço engessado e por isso, com ele encalharam, agora agradeciam aquela senhora o acto heróico de salvar o saco!
Senti-me muito grata por ter ido de autocarro, sítio esse tão fascinante para fazer amizades, ver insólitos, conhecer uma cultura!
Lembro-me que em Lisboa foram muitos os episódios cujo palco era precisamente este meio de transporte que, não era tão quentinho e confortável como estes, mas que também tinha boas cenas de cinema. Uma das que me lembro era a da cigana que apanhava o autocarro no bairro dela e que sabia já que na Boa Hora entrava eu, que saia só no amoreiras, então guardava-me um lugar. E, como dizia ela, nem custava assim tanto, porque bastava ela vir para a ponta para ninguém lhe ir pedir para ela se levantar. Era uma senhora velha que gostava de ter conversas enquanto fazíamos o percurso que tantas e tantas vezes partilhámos!

Uma coisa que penso quando estou assim, sentada a observar, sem perceber nada do que dizem as pessoas, é que em muitas coisas somos todos exactamente iguais. O casal de namorados que entrou, que mesmo não percebendo nada, percebo que estão apaixonados pela maneira como ela finge que não olha para ele, e ele, enternecido olha para ela, e gosta de tê.la ao nível do olhar, quando ela sobe o degrau; os míudos que entraram, um com uns 4 anos, cheio de ranho a dizer olá às pessoas e a mãe, muçulmana, com o cabelo tapado, a zangar-se com ele, enquanto o outro fazia uma birra; o velho resmungão que falava sozinho e quando sai vasculha no lixo mostrando sinais de que algo não está bem com a sua razão... a heroína que salva o saco do homem com a mão engessada que tem as mesmas dores que toda a gente e que de certeza já encalhou com o dedo pequenino do pé na quina de qualquer móvel da casa dele!

Não há coincidências ... As Finanças cá do sítio!

Eu sou daquelas que acredito que as coincidências são momentos fantásticos de reflexão que nos devem levar a pensar, ou melhor, reflectir.
Na sexta recebi uma carta das finanças cá do sítio, dizia o que havia sido dito pela senhora, tudo bem! O pior é que a seguir, abro outra igual que diz que tenho que descontar (por mês) pouco mais de 50% do meu pocket money! Fiquei estupefacta e mais do que isso comecei a ficar nervosa.... É que, para os que não sabem, não tenho vergonha nenhuma em dizer que um dos  motivos que me catapultou para fora das fronteiras foi precisamente o facto de ter que vir a descontar para a segurança social 54% do que estava a receber por mês!!
Lia e relia a carta... quer-se dizer, punha-a vezes sem conta no google translator, mudava a tradução para Inglês, mudava para português e não me fazia sentido... mudava outra vez, corrigia mais um bocadinho, transcrevia outra vez meia hora depois, e decidi-me a ligar. Uma voz estranha que não me sabia falar em Inglês dizia que a correcta era a quantia maior, porque quando é para pagar, é sempre melhor pagar a quantia maior. Como eu não fiquei muito satisfeita com a resposta e pedi uma razão mais plausível do que o senso comum a senhora respondeu que só indo pessoalmente ao serviço de estrangeiros no Skat - Finanças (que na realidade quer mesmo dizer impostos, que eles não estão cá com eufemismos)
Lá fui. Mais uma viagem hilariante de autocarro onde acontecem sempre coisas engraçadas e recordo os tempos em que vivia em Lisboa e andava muito de autocarro.
Havia um erro na minha declaração de impostos, claro! E de imediato foi resolvido, no entanto, a senhora não pôde deixar de notar a minha cara de preocupação por ter que pagar aquela quantia e mesmo quando as coisas já estavam resolvidas, as minhas sobrancelhas, desconfiadas, teimavam em não descolar-se! Então a senhora esclarece: " acha que o Estado Dinamarquês a deixava viver assim?! Fazemos revisões regulares da situação (contas do banco estão ligadas às finanças) e o estado não iria deixar que isso acontecesse. A Senhora nem sequer recebe ordenado! Claro que não poderia pagar tanto" Pelos vistos só chamam ordenado quando é superior a uma dada quantia! Então eu sorri e disse que vinha de Portugal e que lá o estado não se preocupava assim tanto com a minha situação e que lá.... sim! Era possível pagar tanto! Quando contei da situação anterior em Portugal a senhora responde "Não se preocupe mais, agora está na Dinamarca!"

Ainda estou abismada com o facto de ter havido um engano que vai bater certo com aquilo que era, exactamente a minha situação em Portugal. Mas espantos à parte, pondero bem em como as coisas foram resolvidas de modo tão distinto nos dois sítios. 


domingo, 29 de janeiro de 2012

Cartas à moda antiga!

Como só posso estar em casa, o Universo presenteou-me com uma nova paisagem hoje de manhã e pude ver os telhados e janelas pintados de branco!
Foi tão bom! Não dei por nada e acordo assim com  o meu mundo mais branco ...

Já me sinto melhor, mas ainda tenho aquele corpo peçonhento cheio de dores pesadas que nos fazem mover à velho resmungão, e pôr as mãos nas costas enquanto nos queixamos com os nossos botões, num arrastado "aaaiiiiii...." Por isso a neve deu outro fôlego, outro ânimo. Aquele ânimo que permite fazer reflexões saborosas, sem nostalgias dramáticas, sem fados tristes a tocar atrás da nossa orelha fazendo cantarolar de vez em quando... ohh tempo volta para trás. Nada disso, memórias alegres como as dos cromos da comercial que tanto nos fazem rir aqui!

A juntar a esta nostalgia, tinha 6 cartas, em meu nome, para abrir e vasculhar, saber o que me querem, enquanto me lembro de coisas do antigamente. Lembrei-me como hoje as coisas são bem mais fáceis, mas como na altura já achávamos tão bom o que tínhamos! Em Salamanca não havia esta facilidade em falar com as pessoas, mas como não tinha os dias de hoje para comparar, sentia-me bem por poder ir ao msn, ao Domingo à tarde, a um centro chamado Bigg, ou ao meu videoclube, onde pagava um euro para poder estar a falar com os amigos que estavam espalhados por Lisboa, Beja, Ferreira, Setúbal. Era uma emoção, tentar falar tudo naquela hora! Agora, tudo isso é mais tranquilo, com estas coisas estamos mais próximos.

E se fizermos um rewind ainda maior, vamos ao tempo da minha adolescência, em que eu me correspondia com os meus grandes amigos da praia que me faziam receber mais do que uma carta por semana. Aquilo era uma emoção. Tinha sempre cartas em meu nome e a chegada do correio azul foi vista como uma inovação significativa que melhorava muito a nossa comunicação.

Novo rewind e chegamos aos Verões no parque de campismo em que ouvir o nosso nome do altifalante era o máximo e significava que a minha mãe estava a ligar, coisa que acontecia, sensivelmente, 1 vez por semana e mesmo assim, parecia imenso, sentia-me uma das pessoas mais populares do parque. Quando telefonávamos nós era de uma cabine cor-de-laranja que havia à saída, perto do sítio onde todos os campistas procurávamos as cartas que nos eram dirigidas, no cubículo destinado à primeira letra do nosso nome. Passávamos os postais todos, não líamos o que não era nosso, e agarrávamos o que nos dizia respeito, e quase sempre, uns metros mais à frente, sem resistir, líamos as 10 linhas de prosa que cabiam nos postais! 

Em Salamanca também tive a sorte de poder receber algumas cartas e guardo na memória o gosto com que as recebi, de vez em quando, tento voltar a esse momento e fazer o mesmo sorriso enquanto as lia. Tenho a sorte de ter uma família grande e a minha mãe e minhas tias sempre tiveram gosto em dar-me esses miminhos. Talvez aqui já não aconteça isso, mas não importa, porque hoje tudo em bem mais fácil, e já nem precisamos de ir para uma cabine, no meio da rua, falar enquanto contamos as moedas, fazendo aquela ginástica de quem procura por mais uns cêntimos perdidos nos bolsos.
É claro que as cartas que recebi hoje não foram dos amigos que vejo com regularidade aqui no ecrã, foram das instituições que andei visitando desde que cá cheguei, a papelada tratada, começa a ganhar forma, e a secretária começa a ganhar desarrumo! ... sinal de vida nova por estas bandas!

sábado, 28 de janeiro de 2012

Melhor!

Se há coisa que a penicilina tem de bom é o facto de ser rápida!
Hoje sinto-me consideravelmente melhor. Passei da fase de ter que me alimentar de 1/2 chávena de chá com 1/2 chávena de açúcar lá dentro, já que era a minha única fonte de alimentação, para conseguir comer banana e iogurte. E para quem não comia há dois dias isto é um conforto que não dá para descrever. Também já tenho alguma voz e reconforta-me particularmente o pensamento de poder falar com alguém que eu encontre e fale português.
Hoje o pensamento que me destruiu ontem, de não poder falar com aquele casal de velhote, não me parece assim tão trágico, já que, pensando bem, talvez não tivéssemos assim tantas coisas em comum para partilhar, além do facto de sermos portugueses. No entanto, eu gosto sempre de meter conversa e saber algumas histórias. 

Aquilo que me destroçou completamente foi o facto de ter que cancelar todos os meus planos para a Sexta e o Sábado! Sim, todos os meus planos e já tinha alguns!
Para quem chega de novo ter planos é algo que, no princípio, se vislumbra como algo utópico, e quando começamos a ter é entusiasmante! Já tinha planos para 6ª feira e Sábado ...
Tenho aqui a viver, amigos que fiz em Salamanca, que agora estão dispostos a reencontrar-me, mostrar-me a cidade, apresentar-me aos seus amigos e, com isso, sentia-me lisonjeada. Ter que enviar mensagem foi um pouco triste. O que é certo é que adiei esses planos, não os destruí completamente e isso também é bom!


Afinal aqueles fins de semana passados de modo familiar entre todos os estrangeiros, trouxeram mesmo laços profundos, que hoje posso confirmar. Na altura eu tinha essa sensação, mas nunca sabia se de futuro poderíamos ver os frutos dessa amizade. Hoje vejo que sim.Quando jantei com a A. a semana passada fizemos contas e percebemos que não nos víamos há 10 anos. Como é possível uma juventude conter em sim 10 anos? É que na altura éramos jovens e hoje também!

Além do mais percebi que aqui, que estar doente é algo sério. Eles percebem como o frio, a falta de luz, o estar longe da família pioram consideravelmente o estado de ânimo do doente! Todos sabemos que uma simples constipação pode ser dramática longe da família. Quando estamos longe, os dramas tomam outras proporções. Recordo, por exemplo, a facada que foi o simples facto de montar da árvore de Natal a uma 4ªf, que eu não estava presente, quando fui viver para Lisboa. Fiquei profundamente ofendida! Até perceber como estava a ser egoísta, e que nos anos anteriores, marcados por uma adolescência perfeitamente normal, e portanto parva, nem tinha dado assim tanta importância à árvore de Natal. Como poderiam eles saber que eu queria fazer parte desse momento!

Estes dias também serviram para recordar os primeiros tempos em Salamanca, que como praxe, não tive uma doença mas um problema grande com os dentes do siso, ou terceiros molares. No meu caso estava incluso, a entortar as raízes dos restantes e a dar dores horríveis. Lembro-me de não poder comer bem durante mais de um mês. Quando a minha mãe me foi visitar, um mês depois levou um petisco feito por uns vizinhos que era feito a pensar, precisamente na dificuldade em abrir a boca e mastigar!
Recordando esses tempos, considero que esta praxe iniciática de ficar doente quando acabamos de mudar de vida para um país estrangeiro, até foi generosa.
Confesso que ouvir a expressão médico de urgência em dinamarquês, é bem assustador e tive aquele frio na barriga, parecido ao de quem ter que ser operado aos dentes do siso, mas nada melhor que recordar dramas passados, bem superados, para perceber que somos capazes de passar por quase tudo.

Fotos de 2005 em Salamanca

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Doente!

Infelizmente tive hoje a minha primeira aventura com o sistema de saúde Dinamarquês!

Telefonei a marcar a consulta, naquele que foi o médico que me foi atribuído com o meu CPR (cartão de saúde/segurança social). Estes são médicos de família, espalhados pela cidade e consignados por proximidade. Então, há hora marcada, lá fui eu, saí da minha porta, passei a rua e entrei na do médico.

Um ambiente muito acolhedor, colorido, com o quê de hippie. A enfermeira é também a recepcionista e quem nos faz o diagnóstico de triagem. Depois veio a médica, também muito descontraída. Não houve nem luvas, nem batas no atendimento. Fizeram-me análises e tiraram amostras da minha garganta disforme, inchada, afundada em pontos brancos! Deram-me algum miminho e palavras de conforto, que, para ser sincera, não estava à espera num país nórdico.

Enquanto esperei vi várias coisas que gostei de observar, muitos pais com os filhos ou filhas! Adorei vê.los a vestir as meninas com aqueles acessórios todos próprios das menina-princesa e a colocar os fatinhos para o frio com todo o ar de quem costuma fazer aquilo muitas vezes. Sei que há muitos amigos meus que também o fazem com os seus filhos, mas não me venham com tretas... não é assim tão vulgar.

As análises serviram para ver qual o tipo de bactéria em questão, que aqui gostam de tratar as coisas pelos nomes! Quando veio o resultado, veio também um pequeno raspanete, mas pronto, como eu não estava com muito bom aspecto a médica não insistiu mais e confiou plenamente que na próxima vez eu ia mais cedo!

Não paguei nada e fui de receita na mão para a farmácia, na rua em frente. Uns velhotes portugueses aviavam uma data de medicamentos, enquanto a senhora relembrava o marido... falta-me aquela da vesícula, e ele repetia em dinamarquês, para a senhora do balcão! Mas eu, sem voz, nem pude travar amizade com o casal. Pedi então a penicilina, medicamento predilecto por estas bandas.

Recordo que da última vez que aconteceu isto (ter uma amigdalite) em Portugal quando cheguei à farmácia e pedi os medicamentos tive que pagar 42€ de total, fiquei de tal modo chocada que a farmaceutica ligou para o centro de saúde perguntando ao médico se poderia dar genérico  e ele respondeu que não. Note-se ainda, que nessa mesma receita, uma das caixas de comprimidos era de 50 comprimidos, para uma necessidade de apenas 10! O médico pediu especificamente aquela, pelo que não puderam dar-me outra. Aqui ficaram os medicamentos (única despesa) em 15€.


Em menos de 40 minutos estava de volta a casa, com tudo o que precisava para estar melhor... !
Ainda não estou mas hei-de estar!



terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Optimismo ou saloísse?!?

Pois é, parece que hoje já tenho mesmo tudo encaminhado!

Hoje fui ao banco onde todos os funcionários se passeavam alegremente com roupas simples, em mangas de camisa arregaçada, cabelos em apanhados faux negligé e com grandes sorrisos! Assim que viu a minha cara de espanto quando ouvi o som, daquilo que provavelmente deve ter sido " dezoito... Boa tarde, posso ajuda-la?", começou imediatamente a falar em Inglês e explicou-me tudo o que deveria saber sobre a minha conta. Além disso, tinha recebido uma carta em Dinamarquês e perguntou inclusivamente se eu gostava que ela traduzisse. Não era necessário depois de 10 minutos a transcrever a carta no google translator!!! (mesmo depois disso a ajuda da A. e do L. foi preciosa - Obrigada!)

Ficou tudo tratado!

Depois disso dei as minhas voltinhas de sempre aproveitando o solinho bom que estava pela tarde! E tenho a dizer que aqui também há sol. É certo que há frio, mas há sol. Além disso, aqui tenho um sol diferente. Um sol mais livre, um sol que não é ao canto da minha janela enquanto estou a trabalhar. Aqui vejo o pôr do sol, posso estar tranquila e apreciar os momentos de luz, sem os ver passar dentro de uma sala de reuniões.
Ser optimista não é ser tótó e acho que muitos ainda não perceberam isso. Aquela conversa do "amor e uma cabana" em Portugal poderia substituir-se por  " sol e bacalhau". Mas do mesmo modo que não acredito na primeira, também não acredito na segunda. É certo que não preciso de muito e onde há amor, há vida e tudo é possível, mas o optimismo quando não traz consigo a realidade não é optimismo, é fantasia naïve! Do mesmo modo que a conversa do sol e do Bacalhau... epá não vais conseguir viver aí sem o sol e o bacalhau.... é uma conversa que já chega!
Lá estamos de novo, como bons portugueses, a ser pessimistas, porque no fundo estamos a dizer ao outro que não vai ter sucesso na sua próxima etapa, e ao mesmo tempo estamos a fingir que nos satisfazemos apenas com estas duas coisas!

Aqui também há sol e apesar de serem menos horas, o facto de não ter que ser escrava do meu trabalho permite-me aprecia-lo, coisa que não podia fazer aí em Portugal tendo em conta a situação que vivia. Depois sou vegetariana e na minha alimentação o bacalhau substitui-se por alho francês que cá há com abundância! Além disso, mesmo que assim não fosse ... não estou assim tão longe da Noruega!
Outra questão que me fica aqui é a seguinte, se basta o sol, o bacalhau e os anúncios de coca-cola anti crise, porque é que os portugueses estão ainda tão em baixo?

Estou no sitio certo,... Com alma lusa, de quem acredita que pode sonhar sem se perder no céu, lembrando sempre que o patinho feio pode ser um cisne, sei bem as dificuldades que posso ter aqui. Mas saber isso não significa também esquecer as que tinha aí, e as que vou ter sempre, porque como todos ... onde quer que vá, serei humana.
Trata-se pois de viver as coisas com optimismo por isso aqui, desfruto do que aqui tenho, sem me concentrar demasiado nas saudades que já sinto.
Essa é a minha visão optimista das coisas, é ver o lado melhor, e às vezes é preciso olhar as coisas de outro ângulo... aqui tenho outra liberdade :)

Bycicle Freedom

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Como chegar?!

Estou fascinada com isto!

Estas semanas ainda são curtas, portanto conheço ainda muito pouco de Copenhaga. Apesar de ser uma cidade relativamente pequena ainda não sei bem como chegar a muitos dos sítios onde preciso de ir. Depois há também a dificuldade de não conseguir (ainda) pronunciar o sítio para onde vou, nem muito menos arranjar um som que, na minha cabeça, me permita decora-lo. Mesmo correndo o risco de parecer bem labrega: de momento só consigo decorar se a palavra é grande ou pequena, se tem plade ou allé e, por exemplo, que começa por B tem dois O's com dois traços
Mas os meus queridos amigos têm aqui uma coisa maravilhosa. Até ao momento, é de quem eu tenho recebido mais mensagens! E isto demonstra bem o grau de proximidade ;)
Vamos ao site do rejseplanen e temos muito MAS MESMO MUITO mais do que um GPS, temos a nossa rota com os autocarros/metro/comboios ou caminhadas que precisamos de fazer para lá chegar... mas ainda tem mais!
Podemos envia-la para o telemóvel que nos vai dizendo tem que apanhar o autocarro tal na direcção tal e sai na saída x ou y . Eu, é claro, lá vou... e de telemóvel em punho em direcção ao motorista com um grande sorriso peço que ele me avise quando for a dita saída!
Então, neste jogo do Quem quer ser habitante legal na Dinamarca, esta tem sido uma peça fundamental, é claro que com a ajuda do público e a chamada aos amigos fui conseguindo tratar de tudo o que preciso e pode ser até que amanhã tenha toda a papelada tratada!!!!


Bendito rejseplanen!!!



Este é um exemplo com uma ida desde o Serviço de Estrangeiros até ao Skat, as finanças cá do sítio!

Já começou a nevar!


Quando tinha por volta dos 9 ou 10 anos a minha tia levou para a praia, para onde íamos todos os Verões, uma aluna que nunca tinha visto o mar. Ela tinha uns olhos verdes, muito bonitos e muitas vezes observava o mar com um espanto, uma alegria, um encanto... que ela até poderia nem sentir... mas que eu lhe imaginava atravessar o olhar... e lembro-me muito bem de pensar agora terá visto o mar muitas vezes, e aquilo tranquilizava-me!
Hoje quando olho para o mar e o observo vezes sem fim, vejo como é bom poder vê-lo muitas vezes, sentindo, quase sempre, aquela calma de que já viu pelo menos uma vez.
Comigo com a neve passa-se o mesmo. Um momento marcante ver aqueles trapinhos a cair, tudo a ficar branquinho. Já vi neve, já vi nevar mais do que uma vez...
... mas a cada vez passa-me no olhar aquele espanto... uma alegria inexplicável, um encanto, uma surpresa :) Gosto tanto!

Com menos ênfase, mas parecida satisfação, é o que me acontece também muitas das vezes ao ver o por do sol. Que no Alentejo se fazia ao fim de tarde e aqui faço às 16h30 com o mesmo gosto, passeando ao pé dos lagos.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Saudade...

Hoje comecei o dia vendo um filme sobre os emigrantes em Angola.
Uma falava no desencanto... 
Outro falava nas saudades dos petiscos...
O último estava feliz com o facto de poder estar a fazer o que gosta...

... Mas ... todos falaram no estrangular do estado, quer fosse nos negócios, quer na carreira. E é verdade, em Portugal sente-se uma certa asfixia dos sonhos, de poder fazer qualquer coisa de diferente.
Eu sou de Beja, cidade do interior, cada vez mais desertificada mas sem grande oportunidade para os jovens que lá querem ficar. Quis abrir a minha empresa que, sem custos iniciais, poderia desenvolver um projecto interessante. Como é que um estado até isso mata? Uma possibilidade de criar um projecto que não é preciso mais nada a não ser vontade, e nós temos vontade. É uma questão estrutural, a burocracia, pior que as cheias, mete muita água e inunda tudo afogando os sonhos.
Mas estes sonhos impacientes, nas gentes dos trinta, teimam em ficar. A alma lusa sabe que O sonho é ver as formas invisíveis . Por isso vivemos agora uma nova vaga de emigração. A geração que mais estudou e que menos se viu reconhecida. A geração que entrou nas faculdades com médias de 17 para hoje estar na rua, a geração que pode perceber do seu país o que é crescer sem sustentabilidade sem pensar no futuro, sem pensar nos filhos. No país onde não cabemos e nos pedem para sair, onde a liberdade que existia na aventura de emigrar, agora é a obrigação de quem quer tentar, de quem quer não baixar os braços. Todos somos portugueses e todos sabemos que 
Quem quer passar além do Bojador Tem que passar além da dor. 
Mas porque teremos de ser uma nação em esforço sempre?! A grande questão é que no meio de isto tudo há quem esteja bem e quem lucre, por isso o sistema vai perpetuando, renovando-se. Passando de pais para filhos sendo muito difícil mudar desde dentro. É uma questão de valores? É. Mas como vamos pedir valores, moral e ética aos que levaram toda uma vida associando riqueza, precisamente pela ausência de escrúpulos que daí advém?!

Nós já não temos classe política, temos guerras de comadres e ninguém se lembra que valores defende. Quando há pessoas nos partidos que tanto lhes dá qual seja, para poder faltar a empregos dos estado, com maior liberdade. Quando há pessoas que usam o que podem para enganar o Estado, no mesmo dia em que se queixam no café que é uma injustiça ter que pagar as consultas, não temos visão do todo, não sabemos a que pertencemos, não sabemos o que defendemos. Somos aquilo que sempre fomos, uma nação à deriva.

Excertos dos Poemas de Fernando Pessoa Horizonte e Mar Português

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Permissão de Residência

Ontem foi o dia em que tive que ir tratar da permissão de residência... bem, não seria bem este nome já que pertenço à União Europeia, mas o que é certo é que pertencer à UE aqui apenas dá descanso, mais nada! Tudo o resto se consegue com CPR :) nome dado ao cartão que nos dá acesso a tudo!
Então lá fui eu, fascinada com a aplicação online que nos diz como chegar aos sítios e coloquei o destino Borups Allé 177, 2400 København NV, København , depois recebi o itenerário no meu telemovel e foi o que me salvou!
Perdi-me algumas vezes e ainda bem que podia por o telemóvel ao alto mostrando o nome das coisas que eu estava a dizer. Eles olhavam para o telemóvel, eram discretos no riso de gozo e repetiam aquilo de uma maneira completamente inesperada com sons estranhos e indicavam-me o que fazer! Precisei de 6 ajudas para chegar ao destino, se fosse o quem quer ser milionário tinha perdido! Mas aqui é inesgotável :)
Lá foi o reviver do que tinha sentido em Espanha. O serviço de estrangeiros é aquele sítio onde se juntam uma série de pessoas estranhas, e não me refiro aos outros, refiro-me também a mim que sou estranha para eles. Mas por sermos todos tão estranhos e termos algo em comum é aquele sítio onde nos é permitido olhar e ser olhados sem desconfiar. Escolhemos um percurso com a cabeça e podemos recorre-lo vezes e vezes sem conta sem que nos digam ou acusem de indiscretos. Todos falamos línguas estranhas, ninguém é daqui e todos queremos estar. Isso junta-nos, por isso, podemos olhar-nos e estranhar tudo o que quisermos. Noutro sítio, estes olhares seriam censurados, podiam dizer-nos que estávamos a ser racistas, mas aqui, ao cabo de muito olhar, sorrimos uns para os outros e respiramos fundo ao mesmo tempo. Nem demora assim tanto tempo, em meia hora estava tratado, TUDO!
A cereja no topo do bolo, não foi a mala, foi o fim de tarde a passear pelos lagos... que lindo, não me canso. Ver o pôr do sol brilhante, ainda que sejam apenas quatro da tarde. Caminhei muito e conheci caminhos novos, foi bom, é uma cidade bonita. Eu gosto. Há quem diga que só é bonita com sol, mas duvido
 ...


...com neve deve ser deslumbrante!

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Passeio nos Lagos


Fico completamente fascinada pelo facto de encontrar toda a gente na rua, mas mesmo toda a gente! Pais passeando os filhos, senhoras de idade caminhando com as amigas! É uma cidade de ciclistas e de runners, tanta gente a correr de cara vermelha :)

Esta foto foi tirada por mim ontem, dia chuvoso e escuro, e por isso tive de sair de autocarro. Confesso é que estou a começar a ficar desiludida com o frio, com avisos tão alarmistas estava a espera de um monstro insuportável e afinal ....

Aqui até é bem mais confortável do que em Beja, as casas são confortáveis, toda a gente sabe que está frio e prepara-se, não é como aí onde existe (ainda) algum preconceito em usar chapéu ou gorra.
Bom... mas não vou exagerar é verdade que temos mesmo que sair preparados, mas isso pare eles não significa não sair!
Aliás ...
Começo também a pensar no queixume em relação às pessoas... "ai cuidado que são muito frios, nada simpáticos, não ajudam nada" enfim toda essa lamentação.
No entanto, posso constatar que aqui as pessoas, tal como em Portugal, são só pessoas. Mais loiras é certo, com maior descontracção, é certo, mas pessoas! Tal como eu esperava!Há umas mais simpáticas que outras, mas nos meus contactos directos só tenho apanhado simpáticas, mesmo quando falam mal Inglês e eu não as entendo! Dizem-me qual é a paragem do autocarro, como devo usar o bilhete, por que lado devo passar... sorriem para mim, tudo o que a simpatia dá direito!

É verdade que quando tomei a decisão de vir viver para cá considerei apenas muito poucas opiniões, no entanto, não foi isso que impediu muita gente de dar a sua e, claro está (mesmo sem solicitar), fui abalroada com uma série de bons bitaites! Um deles era esse, o das pessoas frias e antipáticas. Quase em tom de quem nunca ter conhecido alguma vez algum português frio e antipático, como se isso fosse mal que só vive noutras bandas. Outra foi a do sol... ai vais sentir tanto a falta do sol. Até a coca-cola fez um anuncio anti-crise onde fala no sol, e, digo eu, como usamos nós o sol e o mar para "sarar" um pouco a ferida da dívida - mal! Subaproveitamos. No entanto, devo referir que essa do sol até ajudou, porque estava à espera de vir viver para uma espécie de bolha onde nunca pudesse ver o sol porque era sempre lusco fusco e afinal até não! O dia hoje foi lindo e fui para a rua e vi uma coisa que muitos portugueses deviam ver,  gente na rua, vivendo a vida cá fora! Muitos dos que me falaram do sol, pouco saem de casa e quase nunca passeiam a pé ou de bicicleta.

E isto tudo para dizer que as expectativas são muito na vida de uma pessoa, ainda bem que trazia as minhas resguardadas ;)


Algumas das fotos tiradas ontem :) Hoje o dia estava lindo e por isso foi passada a tarde a passear a pé no lagos que são lindos :)
Adorei!

domingo, 8 de janeiro de 2012

Montar e Arrumar ...

Ontem fomos ao Ikea, e por estarmos tão próximos da Suécia tudo parece mais autentico! As loiras dos cartazes aí em Portugal, estão aqui, a passar nos corredores e a dar rebuçados às criancinhas ao mesmo tempo que promovem o cartão family!
No entanto, tal como o bom português, aqui também gostam de ir ao Ikea Sábado à tarde, pelo que, estava apinhado de gente.

Hoje foi portanto o dia em que as peças se espalharam pelo chão num puzzle gigante, e graças ao esforço do L. consegui ter um roupeiro!

Estou contente com as arrumações mas fico a pensar em quão simples seria manter tudo simples, ter sempre um quarto com aspecto de "começar de novo" e penso em como nunca consegui levar a cabo esse compromisso interior de "desta vez é que eu fico só pelo indispensável"!

Mas, como estou feliz, rio-me dessa mesma transgressão que teimo em repetir!
(aspecto a melhorar em 2012)


Outra coisas em que me ponho a pensar é no fascínio que a malta escandinava tem por legos, assumindo-se assim o Ikea como os legos para os adultos e para a decoração de interiores. E talvez isso possa ser sinal também da tradição de competição entre Dinamarqueses e suecos, "ahhh pensavam que os legos eram fixes, então agora vamos fazer isso em grande, para os pais montarem coisinhas em casa!"
Mas digo isto a brincar, claro, pondo-me eu ao nível de Ricardo Araújo Pereira que satirizou já loja sueca.
Nem falsa modéstia nem nada!


sábado, 7 de janeiro de 2012

Chegada!

O dia da Fugida foi mesmo de fugida!

A caminho de Lisboa, mergulhados num nevoeiro grande, chegámos com céu aberto e um sol brilhante que sabia que eu me estava a despedir por uns tempos.
A viagem correu muito bem, não vinha muita gente e pude dormir um pouco. Pude usufruir de uma refeição vegetariana que me reconfortou. Esse é o grande mistério das comidas de avião, todos nos queixamos em como é horrível, que não gostamos, mas todos comemos! e até nos sentimos reconfortados.
Uma coisa muito boa desta viagem foi a UP, como aliás de outras vezes já tem sido, gosto da revista. Mas desta vez foi diferente, porque pude ler lá no alto a reportagem sobre a Marta, uma amiga dos tempos de liceu. Já tinha lido on-line aqui, mas foi bom encontra-la na viagem, como nos encontrávamos muitas vezes às sextas-feiras, para voltar para Beja, enquanto estudávamos em Lisboa.
Além disso encantei-me e identifiquei-me plenamente com as palavras que rematam a entrevista e faço por isso das dela, as minhas, quando falam das saudades que vou ter.
"Sinto a falta do meu país nos detalhes, nas pequenas coisas quotidianas, nas amizades e familiares que continuam lá, mas sempre vivi bem essa falta porque encontro o meu país noutros lugares por vezes inesperados. O meu lugar agora é aqui”.

No meu caso, o ponto é diferente. Chego agora para seis meses, mas também já estive fora e sentir saudade sentimos sempre, em qualquer lado, por alguma coisa.

Ao aterrar foi muito bonito porque se via bem Copenhaga, adoro essa visão de cidade de bonecas. Ainda mais porque aqui estava a aterrar na terra dos contos de fadas.
Na viagem para casa pude observar ainda luzinhas de Natal nas janelas, e ver tudo muito tranquilo.
Foi bom chegar a casa!
Hoje vou sair de tarde, está chuva lá fora e está a ser bom olhar para a janela. Os telhados são diferentes, as janelas são diferentes, mais rasgadas e largas, vê-se como gostam de ver entrar a luz.
Sem preocupações andam descontraídos pela casa, então, às camadas, posso ver diferentes pequenos almoços e rotinas matinais. É melhor ter luz em casa do que estar preocupado com os vizinhos!
Gosto dessa descontracção!
Gosto de estar no quinto andar!
Gosto do conforto da minha nova casa!

Bejinhos

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

partida... LAGARTA ... fugida

Lagarta...

 Espero que este desconforto de lagarta se torne numa borboleta linda!
As despedidas são uma chatice, a sorte é que eu desmitifiquei muito as coisas e só agora contei a algumas pessoas, porque senão, ao bom jeito português, de carpideira, ter-se-ia instalado o mais profundo drama na minha vida. A sorte é que eu tenho uma família grande com bom humor e a maior parte dos amigos chegados tão sui generis como eu.

... e este é o dia da véspera e aquilo que não fiz até agora tenho que fazer hoje!
A minha vida coube em 20 kg e consigo vestir os dois casacos de inverno em cima um do outro! E entenda-se isto como muito positivo :)
É claro que há desvantagens em ter uma blusa de gola alta uma malha polar e dois casacos de inverno vestidos, dá naquilo que deu da última vez que fiz isso. Ia conhecer Copenhaga e estava apavorada com o frio. Vestia assim, esses mesmos trajes de cebola de múltiplas camadas. No comboio para Lisboa tinha que trocar em Casa Branca. Saímos de um comboio, esperamos uns minutos, e o outro vem para a linha mesmo à nossa frente frente. Toda a gente tilintava de frio e eu com duas rosas muito vermelhas, sem conseguir meter as mãos nos bolsos!
... mas consigo levar tudo o que preciso para me sentir segura e pensar que não vou ter frio. É claro que isto é apenas uma fantasia, mas dá-me segurança e faz-me respirar de alívio ter as roupas completamente esmagadas e a mala com ar de quem não vai aguentar nem mais um segundo. Sinto muito mais do que os 20 kg de ânimo que a pobre mala pode carregar. Olho para a imagem e penso... eu vou conseguir sem cair ou escorregar!

Estou preparada para deixar o Alentejo e ir para a Escandinávia! (quão estranha é esta frase) e mesmo que não estivesse não é o dia de hoje, atarefadíssimo que me ia permitir que o fizesse. 

Imagem através de Copenhagen Cycle Chic post de de Dallas Cycle Chic

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

PARTIDA... Lagarta... Fugida...

Faltam 3 dias... Hoje é o dia da Partida...
Estou a preparar a partida, já estou em modo de descolagem.
Estes dias sem escrever foram passados com a família e amigos nas festas de Natal, Passagem de ano e aniversário da sobrinha fofinha M. Os que não poderem ser contemplados com um beijinho pessoalmente sintam o meu abraço e o meu profundo obrigado por fazerem parte da minha vida.

A todos desejo um bom ano e sem poder dizer muito mais deixo um vídeo da cidade que me vai receber nos próximos tempos.

Beijinhos e votos de bom ano!